domingo, 31 de maio de 2009

Domingo no Mundo

"Acorda rapaz, o dia rompe
Através do sono escuro
Abriga o teu corpo de onze anos
Tens que ir trabalhar no duro

No ano passado, neste tempo
Ainda andavas tu na escola
Mas a família cresce e tu és rijo
E aqui ninguém pede esmola

Hoje vais ser homem
Por quase nove horas
Sabes lá das horas...
Mas talvez amanhã seja domingo no mundo
E tudo bata certo nem que por um segundo
Fogo-de-artifício se veria
Se fosse assim p´ra sempre um dia

Cuidado
Atenção
É proibido fazer lume
Risco de explosão

Carregas canudos em caixotes
Fazes fogos de artifício
Misturas a pólvora às estrelas
E o arco-íris ao bulício

Se chega o fiscal, faz-te de tolo
Estás ali porque até gostas
Deixa o patrão dar-lhe o envelope
E ficas logo grande, apostas?

Hoje vais crescer
P’ra lá do teu tamanho
O cansaço é tamanho...
Mas talvez amanhã seja domingo no mundo
E tudo bata certo nem que por um segundo
Fogo-de-artifício explodiria
Se fosse assim p´ra sempre um dia

Cuidado
Atenção
É proibido fazer lume
Risco de explosão

Cuidado com o manuseamento
Não te enganes tu também
Olhas de soslaio o tipo ao lado
Que três dedos a menos tem

Paras p´ro almoço e à socapa
Vês revistas de homens grandes
Vais ter que acender o teu cigarro
Nem que pelos ares te mandes

Ah, como é difícil
Saber do amor
Eu sei lá o que é o amor...
Mas talvez amanhã seja domingo no mundo
E tudo bata certo nem que por um segundo
Fogo-de-artifício explodiria
Se tu me amasses algum dia

Cuidado
Atenção
É proibido fazer lume
Risco de explosão

Na fábrica de fogo-de-artifício
Houve, dizem, fogo posto
E um menino sonha a noite inteira
Que perdeu no escuro o rosto"

Sérgio Godinho

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Repetição

Numa esplanada qualquer das muitas que existem nas tantas avenidas de Lisboa

- Boa tarde. Queria um gelado por favor, um copo com duas bolas, uma de cookies e outra de frutos silvestres.

A camisa branca suada e as lágrimas de cansaço que lhe afagam o rosto, denunciam o calor que se faz sentir. Num gesto firmemente submisso, acaricia a mesa com um pano húmido. Um fio dourado que reflecte o verão, abraça-lhe o pescoço agarrando com fé o crucifixo que, denuncia o continuar dos dias seguintes. Traz no olhar o mau humor de mais um dia sem fim. Num passo de conformismo com a vida, dirige-se para o interior

-Sai um copo cookies e silvestres.

As palavras saem a custo e os pés arrastam os dias duros já passados. Calças negras, sapatos apertados, sufocam o ser, as anedotas que tanto gosta de contar, as noites de bola, os amigos, os petiscos, a mulher, os filhos, as discussões, as gargalhadas... Em automatismo ligeiro, numa sociedade robotizada, onde todos traçam o caminho de todos, posa o copo na mesa... A colher inclinada sobre o gelado, revela o sentido da fuga desejada

- São €3,60 por favor.

Entrego-lhe uma nota de €5,00, e num trejeito estéril procura no bolso das ditas calças pretas, o troco.

Vira-se, de ombros descaídos, pesados, e continua o dia repetindo gestos repetidos... A esperança perdida caminha a seu lado...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ausência

Escrevo palavras soltas, sem nexo, assim como a vida é escrita em tons maiores de absurdo. Numa fuga ao quotidiano, num refúgio ao caminhar sobre o arame, descanso por momentos da lucidez insana habitual, no vento que acaricia a folhagem das árvores, e sinto uma paz utópica. Procuro-te em vão... Difundes-te agora nos grãos de areia quente do continente africano... Sinto a tua dor como minha e, o teu sacrifício revela o que de melhor tens e a força desconhecida. Trazes o mundo na palma da mão e decifras os códigos de gentes comuns em culturas diferentes. E em tom de desabafo, dizes baixinho o teu estado de sentir... Num gesto inútil de saudade, abraço as tuas palavras que se perdem nos meandros do meu ser. E no absurdo de mais um dia, perco-me na tua ausência...