terça-feira, 30 de junho de 2009

Introspecção

Female figure with head of flowers
Salvador Dalí, 1937

A vontade não é nenhuma mas a obrigação é muita...
Vontade de andar.
De ver.
De sentar.
De calar.
De dormir...

O jeito não é nenhum mas vontade, imensa!
Vontade de estar perto.
De falar.
De tocar.
De olhar.
De ouvir.
De sentir...

Beijo a agridoce vida...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sede

Do meu punho fechado saem grãos de areia. Trazem gravados instantes, fracções de segundo... São fotografias de tempos partilhados, tempos que escorrem lado a lado num mesmo sentido, numa distância entre si onde as mãos não chegam...

No imenso areal sobressaem aqueles instantes, aqueles dias abraçados pela memória, a miragem de um oásis no horizonte, no meio de tantos outros grãos de areia a formarem um deserto... Surges Tu a desfrutar das águas frescas que abundam, das frutas maduras, doces e sumarentas que se desfazem no teu olhar profundo e as tâmaras satisfazem os paladares mais gulosos.

Percorro o deserto sozinha... Tanto calor... Tanta sede...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Máquina do Tempo


Ontem, em conversa despreocupada com o Ricardo, surgiu a hipótese de ser criada uma máquina do tempo, uma máquina que nos permitisse viajar no tempo de forma invisível, como meros espectadores sem nunca intervir de forma directa. Seria óptimo presenciar momentos passados que traçaram o nosso caminho até ao presente. Mas seria também possível presenciar momentos que continuam a ser uma incógnita nos dias de hoje, que têm a sua própria magia por serem isso mesmo, um mistério.

Seria possível presenciar a batalha de Alcácer Quibir, por exemplo, e conhecer os verdadeiros factos associados ao desaparecimento de D. Sebastião, terminando com o famoso estigma do povo português. E recuando ainda mais no tempo, seria possível descobrir as causas do desaparecimento de civilizações míticas como a Maia, deitando por terra as teorias de uns, vingando as de outros, ou surgiriam até respostas nunca antes imaginadas.

E o que dizer da própria Origem do Homem?

A História seria rescrita com uma maior precisão, isso é certo. Mas também geraria, muito provavelmente, guerras religiosas e/ou políticas, e a História perderia todos os seus enigmas, tão bons de imaginar e essenciais para muitos.

Talvez desse resposta ao verdadeiro objectivo da nossa existência... ou não...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sobrelevação do Sentir...

A chaleira denuncia o nervosismo particular da saudade. São cinco horas. Com a delicadeza habitual, Leonor coloca no bule uma infusão de pétalas de rosa e gengibre, e o aroma exótico invade espaços da casa nunca antes explorados, cada canto faz agora adivinhar um recanto do oriente.

A mesa está posta. Há duas chávenas, dois pires e duas colheres. Há bolinhos de canela, outros de manteiga, e num cesto de verga, sobre um pano bordado a ponto cruz, estão scones ainda quentes. De um lado um frasco de compota de framboesa, do outro a manteiga. Tudo está meticulosamente arrumado sobre uma toalha branca de linho, usada apenas em ocasiões especiais.

Leonor, em desassossego disfarçado, senta-se então aguardando a sua vinda. Olha o relógio: cinco e dez. Tem pele branca, suave, as maçãs do rosto ligeiramente rosadas pelos raios de sol que a beijam logo pela manhã. Os cabelos dourados caem sobre os ombros, lançando sobre o si um perfume a lavanda e jasmim. Traz um vestido branco, solto e comprido, evidenciando as linhas delicadas e belas do seu busto.

O portão do jardim dá as boas-vindas a quem chega. Leonor, tentando controlar o estado de ansiedade e exaltação, abre a porta de casa. É Miguel.

Miguel traz o sofrimento vincado no rosto, as saudades sentidas do passado perdidas no infinito. No olhar, traz palavras de absurdo e de culpa. As lágrimas e o sorriso de quem encontra o paraíso julgado perdido em memórias perenes. A sua roupa cheira a fome, pobreza e guerra, cheira a ganância de uns, a suor estéril de outros... As linhas nas palmas das mãos, desenham a queda de um sofrimento de anos...

Há um abraço que pára o tempo no tempo... As papoilas fundem-se com as espigas do campo, ao sabor do vento de uma tarde primaveril.

O chá frio, aquece os olhares calmos e tranquilos, num silêncio em notas de pétalas de rosa e de gengibre. Momento indelével na sobrelevação do sentir...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Lembro...


Lembro um fim de tarde de verão passado junto ao Tejo, onde a ironia do destino era contemplada...

Sorrisos, palavras soltas por olhares...

E o fresco da relva tropeçou em nós e ali ficou, a saborear os frutos amadurecidos pelo sol e pelo tempo...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

7

Nude with Mirror
Joan Miró, 1919

"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro."

Mário de Sá-Carneiro

sábado, 20 de junho de 2009

Dias Bons...





A noite do reencontro...









Um passeio nas estufas quente e fria...




...e os muitos passeios nas ruas de Lisboa, a contemplar a luz e a cidade...


No Cabo da Roca...



...e uma ida à pitoresca praia de São Pedro de Moel (Marinha Grande) sítio de que tanto gosto, mesmo em dias de chuva.



Muitas e muitas idas a Belém...












Não se deixem enganar pela aparente serenidade do bichinho, é daqueles que não ladra...


...mas morde!

São dias como estes, perpétuos no tempo, que me fazem acreditar no amanhã...

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A volta

Le Seducteur
René Magritte

Navego nas margens do teu olhar, procurando o cais das emoções. Chegada ao local de destino, atraco desamores, sofrimentos passados nos recônditos escondidos que a memória não lembra. Abraço a terra que me abraça de volta, na ausência causada pela Tua falta, na distância... Tantos anos no mar dos teus olhos não fizeram esquecer os aromas da Tua presença em mim. Há mágoas passadas que se perdem no tempo, na escrita do amanhã feliz. E quando chegas, as palavras desfazem-se em letras que voam no sopro da saudade, perdendo-se a tristeza no momento feliz. Que chegue o amanhã depressa!... O amanhã da tua volta...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Conversa com criança de 5 anos

Entrei no metro e sentei-me. À minha frente, sentada ao colo da mãe, uma criança de olhos negros bem arregalados, pousados sobre os meus. Sorriu, correspondi:

- Como te chamas?
- Ana – respondi eu surpresa e ridiculamente intimidada, nunca soube muito bem como lidar com crianças – E tu?
- João – de dedo na boca, mostrava as pinceladas brancas do seu sorriso! – Quantos anos tens?
- Ccchhh! Isso não se pergunta, João! – repreendeu a mãe num gesto automático e mecânico, accionado pela pergunta indiferente socialmente inconveniente - Desculpe...-assumindo a culpa de gravidade ausente.
- 29.
- Isso é quantos?
- São duas mãos, mais duas mãos, mais uma, mais 4 dedinhos. – expliquei eu, em vão, mostrando as minhas mãos magras a alguém que, na sua inocência, não sabe quanto é esse tempo... – São muitos! E tu, quantos anos tens?

Mostrou-me a palma da mão e cinco dedos bem erguidos com orgulho de homem feito!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

(Des)Encontro

Café Terrace on the Place du Forum, Arles, at Night
Vincent van Gogh, 1888

Em conversa amena de café com uma amiga, tomo o gosto do momento e sorvo as palavras que nos escorrem entre os curtos silêncios e o saborear de uma água. E no desabafo dos dias, que passam quase sem os vermos, existem pormenores, detalhes que nos fazem sorrir e perceber aromas não sentidos em tempo real.

O rapaz da mesa ao lado observa-nos e contempla a nossa conversa. Olha para a Maria com um entusiasmo adolescente, escondido sob a sua barba madura, e ela sorri-lhe. Segura firmemente a caneta com que escreve letras juntas, que deixam adivinhar o seu pensamento dela...

E a conversa continua. E o silêncio permanece...
Um (des)encontro(?)... Um dia bom que faz sonhar...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Ccchhhh...

Ccchhhh...
Silêncio...

É o silêncio que me deixa ouvir o cantar do sol
Ou o bater de asas de uma borboleta
Que pousa, tão delicadamente!
Sobre a minha mão.

Ccchhhh!!!
Silêncio!

Silêncio
Que se vai cantar o fado!
É ele que me deixa ouvir as palavras sussurradas
Nos lábios das gentes
No cantar do seu destino.

Ccchhhh...
Silêncio...

Deixei-me ouvir

O que trago no peito.
Olhar único,
Tão perfeito!

Momentos II

Sinto a chuva molhar-me os pés... A fúria dos céus contrasta com as minhas roupas alegres, típicas de verão e com as sandálias tão peculiarmente minhas, onde uma gota de água em cada pé reflecte o brilho dos meus olhos. Há um mar... Lágrimas de saudade que cessam na contagem do tempo que anuncia o relógio de areia... As pessoas correm apressadas, mais do que o tempo, mas sem tempo para o tempo... E tudo passa em câmara lenta... Sorrio... A trovoada aperta-me o peito, encosta-me a Ti...

For You...

"You said I'm stubborn
And I never give in
I think you're stubborn
'Cept you're always softening
You say I'm selfish
I agree with you on that
I think you're giving out
In way too much in fact
I say we've only known
Each other one year

You say I've known
You longer my dear
You like to be so close
I like to be alone
I like to sit on chairs
And you prefer the floor
Walking with each other
Think we'll never
Match at all
But we do (4x)

I thought I knew myself
Somehow you know me more
I've never known this
Never before
You're the first
To make out
Whenever we are two
I don't know who I'd be
If I didn't know you
You're so provocative
I'm so conservative
You're so adventurous
I'm so very cautious
Combining
You think
We would and we do
But we do (3x)


Favouritism
Ain't my thing
But in this situation
I'll be glad

Favouritism
Ain't my thing
But in this situation
I'll be glad
To make an exception"

Adele

sábado, 13 de junho de 2009

Momentos Epicuristas...

















...porque o tempo traz os ventos do reencontro...




...e da esperança...














quinta-feira, 11 de junho de 2009

Passado e Presente

No fim de mais um dia, há uma imagem que retenho na memória:

Um dia quente de verão onde o pensamento reflecte a luz branca do dia que encandeia os olhares mais atentos.

A viagem foi longa e a estrada transpirava, ali deitada, como que a adivinhar o meu destino. As árvores, num gesto cansado, acenavam à minha passagem e desenhavam no céu um rasto verde aguarela, na sua lentidão, tão natural...

Chego a casa. Abre a porta num misto de surpresa e de tristeza, procura o conforto nos meus olhos, nos meus braços, no conhecimento do meu saber... Chora o desespero do passado e o alívio do presente... O sofrimento dos últimos meses está vincado nas suas, nas minhas mãos que se contorcem na tentativa de se acalmarem uma à outra. É inútil... Todas as palavras não chegam para alcançar tamanha dor. Permaneço calada, fechada no meu ermo, no desconforto dos anos passados, no conforto do silêncio, tão familiar...

O cheiro a morte invade-me a memória, trazendo até ela, até mim o que não quero lembrar... O que não quero esquecer... Ouvem-se murmúrios de lamentos, palavras vãs que apenas vincam a dor no peito de quem se quer acalmar... As flores, os choros, os sussurros, os gestos cínicos de quem aproveita para reencontrar alguém que já não vê

- ... há dois anos? Três? O tempo passa... E são precisas estas desgraças para nós encontrarmos..."

Vêem-se sorrisos, ouvem-se gargalhadas que, logo se fecham ao ver o sofrimento passar a seu lado.

Sento-me calada e observo as hortênsias, tão lindas!, que suavizam o vento, solto pelo avançar do sol no horizonte..

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Marisa Monte - Cérebro Eletrônico

"O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Faz quase tudo
Mas ele é mudo

O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda

Só eu posso pensar
Se Deus existe
Só eu
Só eu posso chorar
Quando estou triste
Só eu

Eu cá com meus botões
De carne e osso
Eu falo e ouço
Eu penso e posso

Eu posso decidir
Se vivo ou morro por que
Porque sou vivo
Vivo pra cachorro e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte

Porque sou vivo
Sou muito vivo e sei
Que a morte é nosso impulso primitivo e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro"

Música e letra: Gilberto Gil

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Cómoda das Memórias

Ontem foi um dia assim...

Sentei-me no banco de verga e abri algumas das gavetas da cómoda das memórias.
Que desarrumação! Gavetas torcidas, mal fechadas, cheias de momentos desorganizados na confusão dos instantes de lucidez. Há fotografias misturadas com poemas, frases soltas, aromas a outono e a jardins em flor...

Há dias únicos...

Há um jantar a meia luz, em tons quentes de verão... Há olhos doces no regozijo do (re)encontro... Há poesia nos gestos expressivos, desencontrados das palavras... Há umas sandálias douradas que percorrem na noite, as ruas de Lisboa... Há brincadeiras que soltam momentos indeléveis... Há muitos beijos recusados, um beijo dado... Há palavras duras, e há palavras meigas... Há dedos entrelaçados e o desejo sonhado... Há um “olá” na despedida e um sorriso perene que adormece connosco...

Porque há dias assim...
"Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha, pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja..."

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Diariamente

Imagem do filme "Revolutionary Road"

Abro a portada da janela e vejo as nuvens cinzentas que cobrem o céu... Lá fora, o lamento de mais um dia vem dos Outros, dos rostos, tão iguais que, com um ar compenetrado e responsável, se dirigem em sentido contrário para os locais de vida perdida, num movimento de vida continuada. Vêem-se as preocupações na órbita das suas cabeças, formando o sistema dos deveres de adulto social.

Cai a chuva nos seus rostos já molhados, e num acto inútil, tentam proteger-se. Dizem “Bom Dia” com um sorriso amalgamado aos Outros, aos rostos, tão iguais...

Já é tarde...

Dirijo-me ao local de vida perdida, num movimento de vida continuada... Cruzo-me com tantos Outros, rostos, tão iguais...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Passos Dados

No meio dos “Eus”, caminho...
Cruzo-me com o choro da fome,
O grito da carne crua, ferida,
Gargalhadas de encontros,
Seres felizes
Na infelicidade dos outros...

Há pés que pisam as calçadas de sempre
Que, os cumprimentam e reconhecem
O que decalcam e pisam...
Há pés que adivinham novos passos
Sorriem no prazer da descoberta...

Há silêncios de dor,
Há olhos chorados
Beijos dados
Mãos dadas
Na indiferança, hábito
Amor...

Há casas pequenas grandes...

Há casas grandes pequenas...

Há palavras mudas
Faladas e ditas
Magoadas
Sentidas
Suadas...

Há o encontro de TI,
Vens sempre comigo...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Momentos

Encostada à esquina da vida, traço a linha do tempo... Por entre os devaneios do pensar, encontro a calma, que me sorri e convida para entrar. É então que Tu te sentas a meu lado e, com o Teu sorriso natural, pedes um chá, um chá de hortelã-pimenta.

Reparo no relógio, dourado, que trazes no pulso. Está parado... Sinto o aroma dos ventos quentes e, num momento de silêncio, reparo nas Tuas mãos canela. As rugas do tempo que não passou estão nas tuas vestes, nas minhas, e desenham na plenitude o encontro de um olhar infinito. Observo o nosso rosto... Contemplo... Está parado...