Numa esplanada qualquer das muitas que existem nas tantas avenidas de Lisboa
- Boa tarde. Queria um gelado por favor, um copo com duas bolas, uma de cookies e outra de frutos silvestres.
A camisa branca suada e as lágrimas de cansaço que lhe afagam o rosto, denunciam o calor que se faz sentir. Num gesto firmemente submisso, acaricia a mesa com um pano húmido. Um fio dourado que reflecte o verão, abraça-lhe o pescoço agarrando com fé o crucifixo que, denuncia o continuar dos dias seguintes. Traz no olhar o mau humor de mais um dia sem fim. Num passo de conformismo com a vida, dirige-se para o interior
-Sai um copo cookies e silvestres.
As palavras saem a custo e os pés arrastam os dias duros já passados. Calças negras, sapatos apertados, sufocam o ser, as anedotas que tanto gosta de contar, as noites de bola, os amigos, os petiscos, a mulher, os filhos, as discussões, as gargalhadas... Em automatismo ligeiro, numa sociedade robotizada, onde todos traçam o caminho de todos, posa o copo na mesa... A colher inclinada sobre o gelado, revela o sentido da fuga desejada
- São €3,60 por favor.
Entrego-lhe uma nota de €5,00, e num trejeito estéril procura no bolso das ditas calças pretas, o troco.
Vira-se, de ombros descaídos, pesados, e continua o dia repetindo gestos repetidos... A esperança perdida caminha a seu lado...

Sem comentários:
Enviar um comentário