"... Interessam-me os meus amigos
(tão poucos)
interessa-me que haja sol, gosto de estar vivo embora, tão frequentemente, não saiba o que fazer com a vida, não pretendo passar mais tempo debaixo de tanta lombada e ensurdecido por tanta berraria, interessa-me o silêncio, o ventinho nas árvores, a Serra da Estrela, as pobres coisas que à noite não existiam e amanhecem nos passeios, até frigoríficos, até poltronas, a senhora internada no Hospital Miguel Bombarda que em lugar de
- Bom dia
me cumprimentava com a frase
- Cri cri cri foguete
cumprimentava o mundo inteiro com a frase
- Cri cri cri foguete
e trancava-se a seguir numa atitude feroz, deve ter morrido há que tempos e suponho que insiste
- Cri cri cri foguete
num cemitério qualquer a espantar os restantes defuntos, eles indecisos
- O que significará cri cri cri foguete?
e é simples, cri cri cri foguete significa cri cri cri foguete, nunca encontrei cri cri cri foguete em nenhum livro, em nenhuma revista, não consta, e no entanto que importante cri cri cri foguete, que decisivo. O que eu aprendi no Hospital Miguel Bombarda meu Deus, cri cri cri foguete abarca tudo. Lembro-me de mencionar ao meu falecido pai o cri cri cri foguete, do cachimbo dele se tornar mais rápido, de comentar passados tempos
- Cri cri cri foguete é extraordinário
continuando a ruminar nisso, no caso de se ter mantido cá em cima ainda ruminaria consoante eu rumino, na papeleta dela a profissão costureira de chapéus, um trabalho que me põe a sonhar, calculo já não existirem costureiras de chapéus, pessoas úteis,..."
António Lobo Antunes
in Visão
16 de Julho de 2009

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