segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

São muitos os Velhos do Restelo

É tempo de acordar. Sou equilibrista sem rede.

O público cerca o alvo da possível queda, não se aproxima, tem receio de ser atingido. Não se afasta e os seus olhos estão fixos em mim. Com curiosidade e desconfiança, mascara o desejo de que a queda se concretize. Alguns admitem essa vontade, outros, por acharem não ser pensamento digno de uma natureza "boa", contrariam, oprimem, lutam "contra natura". Mas o desejo está lá, secreto, aguardando o habitual sinal de fraqueza humana, para mostrar o seu verdadeiro carácter, a indomável força de se impor.

E eu, caminho sobre a corda, tão fina quanto comprida, nada esticada, a sorrir com malvadez porque sabe, irei colocar um pé em falso.

Aqui não se ouvem aplausos e há até quem agite os mastros que suportam a corda.

Estranhamente, sinto confiança. Sinto os pés resvalarem sobre a corda mas, sorrio sem cair (pelo menos para já) e não baixo os olhos, nem por um instante.

Não vejo o fim da corda. Não penso em voltar ao sofá que me acena lá em baixo.

Sinto-me capaz de derrubar o espírito do Velho do Restelo...

mesmo que não o seja...

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