quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sobrelevação do Sentir...

A chaleira denuncia o nervosismo particular da saudade. São cinco horas. Com a delicadeza habitual, Leonor coloca no bule uma infusão de pétalas de rosa e gengibre, e o aroma exótico invade espaços da casa nunca antes explorados, cada canto faz agora adivinhar um recanto do oriente.

A mesa está posta. Há duas chávenas, dois pires e duas colheres. Há bolinhos de canela, outros de manteiga, e num cesto de verga, sobre um pano bordado a ponto cruz, estão scones ainda quentes. De um lado um frasco de compota de framboesa, do outro a manteiga. Tudo está meticulosamente arrumado sobre uma toalha branca de linho, usada apenas em ocasiões especiais.

Leonor, em desassossego disfarçado, senta-se então aguardando a sua vinda. Olha o relógio: cinco e dez. Tem pele branca, suave, as maçãs do rosto ligeiramente rosadas pelos raios de sol que a beijam logo pela manhã. Os cabelos dourados caem sobre os ombros, lançando sobre o si um perfume a lavanda e jasmim. Traz um vestido branco, solto e comprido, evidenciando as linhas delicadas e belas do seu busto.

O portão do jardim dá as boas-vindas a quem chega. Leonor, tentando controlar o estado de ansiedade e exaltação, abre a porta de casa. É Miguel.

Miguel traz o sofrimento vincado no rosto, as saudades sentidas do passado perdidas no infinito. No olhar, traz palavras de absurdo e de culpa. As lágrimas e o sorriso de quem encontra o paraíso julgado perdido em memórias perenes. A sua roupa cheira a fome, pobreza e guerra, cheira a ganância de uns, a suor estéril de outros... As linhas nas palmas das mãos, desenham a queda de um sofrimento de anos...

Há um abraço que pára o tempo no tempo... As papoilas fundem-se com as espigas do campo, ao sabor do vento de uma tarde primaveril.

O chá frio, aquece os olhares calmos e tranquilos, num silêncio em notas de pétalas de rosa e de gengibre. Momento indelével na sobrelevação do sentir...

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